quinta-feira, 21 de maio de 2026

Joana Marques domina o palco em "Em Sede Própria": humor, irreverência e crítica social em turnê nacional

19 de maio de 2026
Joana Marques domina o palco em "Em Sede Própria": humor, irreverência e crítica social em turnê nacional
Joana Marques domina o palco em "Em Sede Própria": humor, irreverência e crítica social em turnê nacional

A tournée de Joana Marques continua a conquistar público por todo o país. O espetáculo "Em Sede Própria" segue em cartaz até 28 de Maio, com 47 sessões completamente lotadas, encerrando no Coliseu dos Recreios em Lisboa.

Num registo bem diferente do que é habitual nos palcos, a humorista opta por transformar um tema juridicamente complexo numa experiência teatral e cômica, dispensando a dramatização excessiva que caracteriza os programas de tribunal televisivos. A estratégia é arriscada mas eficaz: em vez de se apresentar como vítima, Marques abraça a personagem da "vilã", antecipando as críticas que lhe foram dirigidas durante o último ano, especialmente em programas matinais.

A transformação de mais de 500 páginas de documentos legais numa peça de duas horas revela-se numa mistura bem calibrada de factos reais e teatro. O ponto de viragem surge quando a construção dessa persona malévola finalmente encontra o seu ritmo cómico, resultando num espetáculo que vai muito além de simples compilações de vídeos com comentários.

O que mais impressiona é a presença de palco de Marques. A sua destreza com o texto e o controlo absoluto da atenção do auditório refletem alguém completamente consciente da importância deste momento, tanto criativa como mediática. No palco, ela funciona simultaneamente como juíza, advogada do diabo e algoz — sempre com precisão devastadora.

Mas o espetáculo não se resume a um acerto de contas com os irmãos Nélson e Sérgio Rosado. Longe disso. Joana Marques reserva espaço para o seu alvo preferido no panorama mediático português: Cristina Ferreira. Os momentos em que a apresentadora é visada provocam reações particularmente intensas no público, com alguns segmentos de vídeo gerando manifestações de desagrado tão vigorosas que quase "derrubam a casa".

A capacidade da radialista em identificar e selecionar momentos televisivos desconcertantes — uma perícia desenvolvida ao longo de anos consumindo e desconstruindo a falta de noção alheia na televisão portuguesa — fica aqui, mais uma vez, dramaticamente evidente.

Para os seguidores do seu programa "Extremamente Desagradável" na Rádio Renascença, este espetáculo funciona como uma verdadeira catarse. Considerando que as notícias frequentes sobre a lentidão e arbitrariedade do sistema judicial português tornam uma vitória em tribunal longe de garantida, a possibilidade de rir-se de tudo o que envolveu aquele processo tem um sabor especial de liberdade.

Mais do que simples vingança pública, "Em Sede Própria" demonstra o poder transformador do bom humor. Joana Marques conseguiu converter um processo judicial absurdo numa experiência de entretenimento genuíno, reafirmando que ainda existe espaço num país onde o humor pode florescer livremente e, quando bem executado, é simplesmente irrefutável.

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