quinta-feira, 21 de maio de 2026

Fernando Tordo revela os bastidores de "Cavalo à Solta": da inspiração ao legado

21 de maio de 2026
Fernando Tordo revela os bastidores de "Cavalo à Solta": da inspiração ao legado
Fernando Tordo revela os bastidores de "Cavalo à Solta": da inspiração ao legado

Uma das canções mais icónicas da história da música portuguesa ganhou vida de forma quase mágica. "Cavalo à Solta", composta e cantada por Fernando Tordo com letra de José Carlos Ary dos Santos, chegou ao mundo em 1971 e desde então conquistou gerações de ouvintes. O tema, que usa a imagem de um cavalo em liberdade como símbolo de liberdade e energia contida, capturou perfeitamente o anseio de mudança que pulsava entre os portugueses durante o Estado Novo.

Recentemente, no programa Conta-lá, Fernando Tordo abriu o baú das memórias e conversou com Margarida Pinto Correia sobre como tudo começou. O ponto de partida? Uma tarde em 1968, após um almoço no famoso café Vavá, em Lisboa.

"Eu fui almoçar ao Vavá, estamos em 1968. Saí do Vavá. Eu almoçava normalmente a horas, cinco e meia, seis horas eu já estava almoçado. Houve qualquer coisa que começou que era giro, que era a repetição da frase", recordou o artista, descrevendo o momento em que a melodia lhe surgiu na cabeça.

A preocupação era imediata: como guardar aquela ideia antes que ela se desvanecesse? Tordo lembrou-se de um amigo que vivia nas proximidades e tinha equipamento de gravação — João Maria Tudela. "Digo assim, e penso, epá, mas espera aí, eu tenho aqui um amigo, tem um gravador fantástico. Tinha um Nagra, o gravador. Deixa-me aí gravar uma coisa", contou, explicando como conseguiu registar a melodia naquele mesmo dia.

Com a harmonia já segura, o próximo passo era encontrar as palavras certas. Fernando Tordo decidiu procurar Ary dos Santos, com quem ainda não tinha grande familiaridade. Acompanhado por João Maria Tudela, dirigiu-se à casa do poeta na rua do Alecrim. O que se seguiu foi uma sessão criativa que duraria poucas horas mas deixaria marcas eternas.

"Tivemos aí, entre os gin tónicos, cigarros, uma história do João Maria, não sei o quê, tivemos ali umas duas horas, duas horas e tal", descreveu Tordo. Naquele ambiente de inspiração, Ary dos Santos colocou no papel versos que se tornariam memoráveis: "Minha laranja amarga e doce. Meu poema feito de gomos de saudade. Minha pena pesada".

O cantor confessou que sentiu imediatamente que estavam perante algo revolucionário: "A noção que eu tive é que em Portugal aquilo não existia".

Mas havia ainda um detalhe por resolver — o título. Surpreendentemente, foram os próprios criadores que não conseguiam encontrar um nome para a obra. Foi João Maria Tudela, o amigo que os observava, quem teve o lampejo de clarividência: "Dizia assim o João Maria: Ah, desculpem, posso dizer uma coisa. Eu acho estranho como é que estes dois amigos que estão aqui, que acabam de fazer uma cantiga que se calhar vai ficar para sempre, não saibam que esta cantiga se chama Cavalo à Solta".

A ligação de João Maria Tudela à canção revelou-se tão profunda que, anos depois, deixaria um pedido tocante para o seu funeral. Fernando Tordo partilhou esse momento com emoção: "O João Maria tinha avisado a mulher dele que quando fosse para o crematório, queria que o seu amigo Fernando Tordo fosse cantar o Cavalo à Solta. A minha figura, o padre daquele lado, eu aqui, e com os amigos todos à volta, o caixão por entrar para o crematório… O senhor Fernando Tordo vai cantar o Cavalo à Solta".

Tordo refletiu sobre a beleza daquele gesto: "Mas é extraordinário, que é um sinal de superior sensibilidade imaginar isto após a morte. Ele considerava o Cavalo à Solta uma coisa dele e eu acho que tem toda a razão. Sinceramente, foi uma coisa fantástica, coisas que não se esquecem".

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