Éder volta à SIC e revela os desafios da infância: "Tinha que ser forte"

Dez anos depois de eternizar o seu nome na história do futebol português, Éder regressou aos estúdios da SIC para uma conversa intimista com Daniel Oliveira. O agora quadragenário herói de Paris abriu-se sobre as feridas da infância vivida numa instituição, o calvário das lesões que o perseguiram e a forma como a chegada dos filhos mudou completamente a sua perspectiva de vida.
O golo que levou Portugal ao título europeu continua a marcar presença constante no seu quotidiano, alimentado pelo carinho permanente dos adeptos. "Todas as recordações, as emoções, consigo ainda vivê-las. Continuo a arrepiar-me sempre que as pessoas falam naquele instante. Cada vez que alguém partilha comigo histórias sobre isso, tudo permanece muito vivo", partilhou, considerando o rótulo de homem do golo como "uma verdadeira bênção".
O ex-atleta descreveu a sensação peculiar que experimenta ao reviver o lance decisivo: "A imagem que guardo, especialmente quando fecho os olhos, é como se a minha alma tivesse saído do corpo, como se estivesse a ver um filme com um final perfeito".
O preço das lesões
O caminho até à glória em França foi severamente marcado por problemas físicos que forjaram a sua capacidade de resistir à pressão pública. "Passei por oito cirurgias durante a minha carreira. Não foi simples e fazer parte deste acontecimento realmente trouxe-me muita serenidade", revelou, reconhecendo que compreendeu as críticas dos adeptos naquela altura, dado o declínio do seu rendimento. As dificuldades começaram cedo demais: aos cinco anos foi deixado num colégio em Braga devido aos constrangimentos financeiros da família.
"Quando se fala em resiliência, agora falamos em patinho feio, talvez fosse já desde a minha infância […]. Na instituição tens de ser forte. Mesmo em momentos em que é impensável chorares diante de toda a gente, não tens escolha. Pelo menos para mim era assim, não podias chorar", recordou com peso nas palavras.
A transformação através da família
O equilíbrio emocional e familiar surgiu a partir de 2016, quando conheceu a sua mulher belga durante a sua passagem pelo Lille. A paternidade, que começou em 2018 com o nascimento do primeiro filho, proporcionou-lhe o propósito que ansiava. "Acho que todas as minhas experiências me tornam agora um pai melhor, fazem-me sentir que tenho algo importante para transmitir aos meus filhos. Não tenho manual nenhum, mas tenho um conjunto de coisas aqui dentro que me impelem a ser melhor todos os dias", explicou, mostrando-se profundamente envolvido na vida dos filhos.
Quanto à relação com o pai, o ex-futebolista minimizou qualquer tensão pública, afirmando ter superado completamente qualquer ressentimento. Hoje, o pai convive regularmente com os netos, facto que o enche de satisfação. "Não há mágoas. Nenhuma. Nenhuma mesmo. Porque, vendo bem as coisas, e não é por mim, há é orgulho. Cada um faz o que consegue, com o que tem, da maneira que sabe, com os recursos que dispõe", concluiu, demonstrando uma paz total com a sua trajetória.
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